Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Literatura

O Sangue que Jorra das Veias

Por Dário Matos

No Mar do Caribe, as trombetas da guerra soam. Há poucos dias, comemoráramos o aniversário de um Cristo morto em nome do amor ao próximo, de ideias enterradas nas cavernas do cristianismo primitivo… Depois de alguns tragos e de encher a barriga, esquecemos dos nossos “hermanos” que passam fome nos semáforos, com suas mãos infantis segurando plaquinhas em um portunhol mal escrito, pedindo comida. Levanto os vidros da janela e culpo Maduro pela miséria do seu povo. Sigo em frente, gasto o dinheiro que não tenho com coisas de que não preciso. Penso nas nossas mesas fartas, com várias iguarias regionais, de perus a pirarucus de casaca; olho no retrovisor, e o cortejo da Coca-Cola passa na avenida, com um Papai Noel prometendo “riqueza e prosperidade” para as crianças famintas, com lágrimas nos olhos, que arremessam papéis rabiscados em direção ao trenó do ancião miserável.

Não são só os refugiados que sentem fome. A estes seria fácil saciar: precisaríamos apenas de 1% da fortuna dos super-ricos do mundo e de usar o dinheiro das guerras para distribuir mantimentos. Mas há uma fome maior que a das crianças do nosso continente. O Tio Sam nunca dorme. Enquanto vestíamos as nossas roupas de Natal e comíamos o peru da nossa mais-valia, os senhores da guerra colocavam seus planos em prática: destroyers, bombas e a CIA. Aquela mesma que assassinou tantos revolucionários ao longo da Guerra Fria.

Na manhã de sábado, as veias da América Latina, mais uma vez, foram abertas com a navalha do imperialismo estadunidense. El sangre del pueblo jorra pelas ruas de Caracas. Assistimos na TV ao futuro repetir o passado, tal como a queda de Noriega no Panamá, em 1989… Os venezuelanos de Miami comemoram o jugo do novo senhor, branco e sofisticado. A democracia cede espaço ao Código de Hamurabi: “olho por olho, dente por dente”. É a lei do mais forte, o domínio unilateral do continente por sua superpotência decadente, em um verdadeiro ato de desespero para impor seu imperialismo em uma região que, apesar de seus problemas, vivia uma relativa paz consumindo produtos “xing-ling”.

Em seu resort de luxo na praia da Flórida, onde acompanhava a operação tomando espumante, entre dançarinas vulgares e banquetes homéricos, o autointitulado senhor das Américas esgotava seus superlativos para tentar trazer grandeza à operação covarde e medíocre. Em alguns minutos, sequestrou Maduro que, acuado, mostrava a covardia de quem se alimenta da fome do povo. O terror continuará; só mudou de cheiro e de uniforme.

Após a captura de Nicolás Maduro, Donald Trump, tão ganancioso quanto seu xará, o Pato Donald, bradou aos microfones, em alto e bom som, para que o mundo ouvisse: “Os Estados Unidos governarão a Venezuela!”.

Nuvens negras pairam sobre o nosso continente, abrindo precedentes perigosos, nos quais o mais forte pode pilhar os mais fracos; tomar, roubar, sequestrar e invadir, tudo justificado por um discurso sem saliva de liberdade e riqueza para os povos oprimidos.

Em Potosí, nossos ancestrais foram amaldiçoados pela voz da montanha muito antes da chegada dos espanhóis. Como recorda Eduardo Galeano, em As Veias Abertas da América Latina:

“Diz-se que, em 1462, o inca Huayna Cápac mandou extrair a prata de seus flancos, e de lá ouviu uma voz que disse em quíchua: ‘Não é para vocês; Deus reserva este metal para os que vêm de fora’. Os índios fugiram espantados, e o inca mudou o nome da montanha, que passou a chamar-se Potosí, que significa ‘troveja, arrebenta, faz jorro’.”

A história, cíclica e cruel, troveja novamente. E o sangue negro, mais uma vez, não é para nós.